segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

7 detalhes que fazem você passar (ou não) numa entrevista

Mostrar respeito à figura do profissional de RH é essencial, diz especialista

Entrevistas de emprego são jogos delicados. Por vezes, um pequeno gesto involuntário ou uma palavra mal colocada podem colocar tudo a perder.
Algumas variáveis para o sucesso são até inusitadas. Pesquisas já mostraram, por exemplo, que o horário da entrevista e até as condições climáticas do dia podem interferir no humor de um avaliador - e levá-lo a se decidir ou não por uma contratação.
No entanto, há nuances mais ou menos controláveis que interferem nos resultados de um processo seletivo. Veja a seguir 7 desses detalhes, apontados por recrutadores ouvidos por EXAME.com:

1. Nível de positividade do discurso

A sua imagem perante o entrevistador depende em larga medida do entusiasmo implícito no seu tom de voz. De acordo com Gabriel Almeida, gerente executivo da Talenses, é esperado que o nível de energia varie naturalmente de pessoa para pessoa, mas é inegável que aquelas que transmitem mais positividade costumam ter vantagem.
Isso não significa que você deva ser teatral. “Eu me lembro de um candidato ótimo que acabou não conquistando a vaga porque fechava os olhos por três ou quatro segundos enquanto dizia algo”, conta Marcelo Beltrame, gerente da Michael Page. “Exagerar na energia, às vezes, pode ser interpretado como artificialidade por alguns recrutadores”.

2. Qualidade do vocabulário

Você não precisa - e nem deve - usar palavras muito difíceis só para impressionar. Ainda assim, você certamente ganhará pontos se tiver um vocabulário amplo, preciso e livre de gírias.
A conversa também é muito influenciada pelo emprego de jargões. “O candidato precisa identificar com quem está falando, se é com alguém da área dele ou com alguém do RH”, diz Almeida. Se o diálogo for com um leigo, é necessário adaptar o vocabulário mais técnico para se fazer compreender.

3. Capacidade de fazer perguntas

Segundo Fabio Saad, gerente da Robert Half, os candidatos não são avaliados apenas por suas respostas: quanto mais certeiras e interessantes forem as suas perguntas, maior a chance de causar uma boa impressão.
Isso porque pessoas que apenas reagem ao que lhes é solicitado podem transmitir certa indiferença ou até despreparo. Se o profissional não fizer nenhuma pergunta, o entrevistador pode até se perguntar se o candidato realmente entendeu tudo que foi conversado, afirma Saad.

4. Expressão facial e corporal

Nem tudo que interfere na decisão do avaliador sai da boca do candidato: muitas vezes, o recado é transmitido pelos pés, braços, olhos e diversas outras partes do corpo.
É que não faltam detalhes de linguagem corporal que podem afetar os rumos de uma entrevista de emprego. Segundo Paulo Sérgio Camargo, especialista no assunto, você deve gesticular moderadamente enquanto fala e inclinar-se um pouco para frente ao ouvir uma pergunta, por exemplo.

5. Respeito à figura do RH

Outro detalhe que faz toda a diferença é o tratamento dispensado ao profissional de recrutamento. Em grande parte dos casos, lamenta Beltrame, falta consideração por parte do candidato.
“É muito comum que a pessoa desmereça o departamento de recursos humanos e até insinue que preferiria falar com alguém da área dela”, diz. "Demonstrar, ainda que sem querer, que você não não vê muita importância na figura do recrutador é um tiro no pé".

6. Roupas

Via de regra, o vestuário do candidato não está no topo dos critérios de um avaliador. Porém, o seu guarda-roupa não deixa de ter um peso considerável para o seu sucesso.
Segundo Beltrame, até um ótimo candidato pode ser prejudicado se vier com roupas completamente fora do dressing code do seu potencial empregador. E se ele estiver fazendo uma entrevista às cegas e não souber nada sobre a empresa contratante? O melhor a fazer é apostar nas peças mais neutras que você encontrar, recomenda o executivo.

7. Empatia

Existe, por fim, algo totalmente imponderável na interação entre recrutador e candidato: a "química". Segundo Almeida, até a entrevista mais impecável pode ser ameaçada pela falta de identificação pessoal entre as partes. Mas como se preparar para uma variável tão subjetiva?
Para Almeida, o segredo é simplesmente agir de forma espontânea. "Ser você mesmo é a única forma de arriscar uma conexão pessoal verdadeira", explica. Ainda assim, há uma grande chance de tudo fracassar e você não saber exatamente onde errou. “É preciso aceitar que não dá para controlar tudo”, conclui o executivo.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

5 frases que pessoas fracassadas dizem para se iludir

Conheça e evite dizer sentenças que desestimulam os empreendedoreschefe; gestão; briga; conflito; briga (Foto: ThinkStock)

Muita gente usa essas frases como desculpa por seus erros (Foto: ThinkStock)
O fracasso é um medo permanente em nossas vidas. É um fantasma que destrói sonhos e torna a trajetória rumo ao sucesso mais difícil. Algumas pessoas enxergam a falha como uma oportunidade para aprender mais e não cometer os mesmos erros novamente.

Mas outras não. Encaram o fracasso como o fim de um sonho e acreditam que não têm culpa pelos seus erros. Por isso, têm um discurso pessimista, usado por eles para que acreditem que o insucesso existiu por causa de fatores externos. 
Para o empreendedor digital americano Larry Kim, essa autoilusão é refletida em algumas frases, normalmente ditas por quem fracassou. Ele afirma que essas sentenças desestimulam os empreendedores, pois mostram que o sucesso é praticamente impossível.  
Em reportagem do site da revista "Inc.", Kim lista as frases. Saiba quais são elas e as evite:

1. "Agora meu dia está arruinado" 
De fato, é ruim começar o dia com o pé esquerdo. Mas, segundo Kim, proferir essa frase incentiva as pessoas a pensar que nada mais dará certo e, consequentemente, faz com que elas não se esforcem mais nas horas seguintes. Por mais que seu dia tenha começado mal, há chances importantes de algo bem legal acontecer. Seja otimista. 

2. "Essa pessoa só serve para me atrapalhar" 
A frase é bastante egocêntrica, de acordo com Kim, e muito provavelmente não corresponde à realidade por uma razão simples: é bem difícil que alguém tenha tempo especialmente para te prejudicar. Caso realmente haja uma perseguição, faça o possível para ignorá-la. Quanto maior for a sua reação, mais fortes serão as provocações. 

3. "Não há chance disso funcionar" 
 Outra vez, este é mais um recurso de quem desiste antes mesmo de tentar buscar uma solução. Vale dizer que, naturalmente, nenhum empreendedor deve insistir algo que não dará certo. Ou seja: essa frase até pode ser dita. Mas só após algumas tentativas. 

4. "É impossível" 
É usada nos mesmos contextos em que a sentença anterior costuma surgir. E também só pode ser dita por quem pelo menos tentou algo. 

5. "Eu sou péssimo fazendo isso" 
Todos têm pontos fortes e fracos. Mas, assim como na primeira sentença, esta também pode levar quem a diz a não dar tudo de si em um determinado trabalho. É como se a pessoa fosse tão ruim em alguma coisa que nem tentasse fazê-la. 

Kim diz que empreendedores, até por não terem muitos funcionários, não podem ter essa postura. Devem estar dispostos a trabalhar em áreas que não dominam e a sempre aprender.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Decisão e ação: a chave do sucesso ou do fracasso

Por  J. Augusto Wanderley

Não decidir já é uma decisão

As pessoas nem sempre têm consciência de que, quer queiram ou não, estão sempre decidindo, pois não decidir já é uma decisão. Logo pela manhã já decidimos se queremos que o nosso dia seja AAA (ameno, agradável, apaixonante) ou DDD (difícil, desagradável, depressivo). Decisão é uma escolha entre alternativas e tudo o que se faz na vida é uma alternativa. Assim, por exemplo, a roupa que você está vestindo agora é uma alternativa e o mesmo vale para o que você vai fazer hoje. E para reforçar o que estamos escrevendo, vamos citar Peter Drucker: “O produto final do trabalho de um administrador são decisões e ações”.
Assim, devemos considerar que:
• É nos momentos de decisão que o nosso destino é definido
• São as nossas decisões e não as condições de nossa vida que moldam o nosso destino
• Você começa a mudar a sua existência no momento que toma uma nova decisão. Você deve saber que a qualquer momento uma decisão pode mudar o curso de sua vida para sempre
• Na grande maioria, são as pequenas decisões ao longo do caminho que fazem com que as pessoas fracassem
• A verdadeira decisão importa em ação

Se estamos sempre decidindo, é importante saber que decisões devemos tomar. Existem 5 que são fundamentais:
1) Decidir sobre o que queremos, nossas metas e sonhos
Quais sãos os nossos objetivos em todas as áreas da nossa vida, como profissional, afetiva saúde, financeira, contribuição?
2) Decidir sobre o que precisa ser feito e fazer o que precisa ser feito
Não adianta ter objetivos se não houver ação. Uma pesquisa feita pelo psicólogo Richard Wiseman sobre as promessas de fim de ano constatou que aproximadamente 78% das pessoas acabam não cumprindo suas promessas de fim de ano. Portanto, cabe uma pergunta: o que você fez ou está fazendo hoje está levando na direção dos seus objetivos? O fato é que se o que você fez ou estiver fazendo hoje não levar na direção dos seus objetivos, os seus sonhos não passam de ilusão. E é sempre bom lembrar o que diz John Whitmore: “Eu só posso controlar aquilo de que tenho consciência. O que não tenho consciência me controla. A consciência me fortalece”;
3) Decidir e desenvolver as competências necessárias
E este é um assunto da maior relevância que muitas vezes é mal compreendido ou compreendido superficialmente. Portanto, vamos nos deter um pouco mais neste tópico. Existem 3 competências que são fundamentais, sobretudo para um administrador, que são: processo decisório/solução de problemas, negociação e desenvolvimento de equipe/comportamento em pequenos grupos. É sempre bom enfatizar que processo decisório é a competência das competências, já que tudo na vida importa em decisão e ação. O fato é que aquilo que somos hoje é consequência das decisões e ações do nosso passado e o que seremos amanhã, das decisões e ações do presente.
Negociação é outra competência indispensável, pois passamos mais de 50% do nosso tempo negociando. Mas também deve ser entendido que para negociar bem existem algumas competências de apoio, como comunicação. Desenvolvimento de equipe é outra competência da maior relevância, pois as equipes são parte essencial do modo de se estruturar uma organização e de se fazer negócios. Um estudo sobre as 500 Mais da revista Fortune revela que 80% das empresas listadas adotaram o trabalho em equipes, pois equipes bem desenvolvidas são capazes de melhorar o desempenho dos indivíduos e são o fundamento da sinergia organizacional. Quando as organizações se reestruturam para competir, de forma mais eficaz e eficiente, elas escolhem equipes como maneira de melhor utilizar os talentos de seus funcionários/colaboradores.
As equipes são mais flexíveis e reagem melhor às mudanças do que os departamentos tradicionais e outras formas de agrupamentos permanentes, pois podem ser rapidamente montadas, organizadas e ajustadas. Isto sem considerar as propriedades motivacionais das equipes, pois elas facilitam a participação nas decisões. Entretanto, equipes despreparadas são a estrada para o fracasso e estão sujeitas a fenômenos como “pensamento grupal” e a coesão baseada em baixas normas de desempenho.
Mais ainda: Devemos considerar as competências sob três óticas que são a competências exigida, para fazer face aos problemas, desafios e oportunidades, a desenvolvida, fruto do nosso  esforço de autodesenvolvimento e a acessada, ou seja, a que nós conseguimos utilizar efetivamente. Pesquisas mostram que em função das adversidades, estresse e crenças limitantes, nos momentos de tensão é muito comum não termos acesso à plenitude das nossas competências e recursos e, como consequência, o nosso desempenho pode ficar extremamente prejudicado, como foi o caso do jogador de futebol Zinedine Zidane na Copa do Mundo de 2006.
Um outro ponto fundamental é que a competência não se mede pelo que você sabe, mas pelo que você faz. Assim, você pode ler tudo e saber tudo sobre dirigir automóvel, mas mesmo assim ser um barbeiro, ou uma barbeira. Portanto a verdadeira competência se define pelo que está condicionado no seu sistema nervoso. Ou como dizia John Dryden: “Primeiro nós fazemos nossos hábitos. Depois nossos hábitos nos fazem”.
4) Decidir sobre a administração do estado mental e emocional
Existem estados mentais e emocionais fracos/pobres de recursos e ricos de recursos. Não adianta ter competência, pois quando se entra em estado mental e emocional fraco de recursos não se tem acesso aos nossos recursos e competências. É importante identificar as 5 estratégias básicas para a administração do estado mental e emocional que são a cinestésica, a auditiva interna, a auditiva externa, a visual externa e a visual interna.
5) Decidir sobre nossas crenças
Crença é um sentimento de certeza em relação a algo ou sobre o que alguma coisa significa. São as conclusões e generalizações que fazemos a nosso respeito, dos outros e do mundo. Uma vez aceitas, nossas crenças tornam-se ordens inquestionáveis para o sistema nervosos e possuem o poder de expandir ou destruir as possibilidades do nosso presente ou futuro, haja visto o efeito placebo e o feitiço vodu. No caso do efeito placebo, uma pessoa que está comprovadamente doente, toma um remédio, que na verdade é farinha de trigo com açúcar e fica curada. No caso do feitiço vodu, quando uma pessoa acha que foi atingida pelo feitiço entra em depressão profunda e acaba até morrendo. 
Um outro exemplo do poder das crenças é o de um halterofilista que pode levantar facilmente 150 quilos, mas se é induzido a um transe hipnótico e recebe o comando de que não consegue levantar uma agulha, efetivamente não consegue levantar uma agulha. Assim, crenças, são como um comando hipnótico que nos fortalecem ou nos fragilizam e também afetam o nosso sistema imunológico, como mostrou Robert Dilts, um expert no assunto. A mãe de Dilts estava com um câncer avançado e considerado incurável pelos médicos. Entretanto, com um intenso trabalha de mudança de crenças sua mãe voltou a ficar completamente saudável.
O fato é que a maioria das pessoas não tem consciência do seu conjunto de crenças e nem da forma como elas impactam no seu desempenho.
Um outro ponto fundamental é que antes da decisão e ação vem a percepção e a compreensão e avaliação. O que deve ser entendido é que a percepção é a chave do comportamento, e aqui vem um equívoco fundamental da maioria das pessoas que acha que aquilo que veem é a realidade. Errado. O que uma pessoa vê é a sua versão da realidade e quem prova isto é Albert Einstein. Assim, se você estiver num trem em movimento de deixar um objeto cair, para você este objeto vai cair numa linha vertical. Entretanto, para que estiver fora do trem, este mesmo objeto vai cair numa linha inclinada ou numa curva. E isto sem considerar a questão dos modelos mentais. Mais ainda: existem dois outros fenômenos importantes de percepção que são a alucinação negativa e a alucinação positiva. A alucinação negativa é quando você olha e não vê. Você já procurou alguma coisa e não encontrou e de repente percebeu que estava na sua frente? Já a alucinação negativa é uma espécie de miragem e ter expectativas absolutamente irrealistas.
Um outro ponto que antecede a decisão e ação é a capacidade de avaliação. Warren Buffet quando perguntado pela razão do seu sucesso respondeu que se devia, em grande parte, à sua capacidade de avaliação. Um dos pontos que mais prejudica a capacidade de avaliação é a da avaliação precipitada e em consequência disto decidir. E é claro que a decisão estará errada. E o passo seguinte é defender a decisão tomada e agir como um torcedor, considerando somente os aspectos positivos da decisão tomada e ignorando todos os pontos negativos que podem ser muito maiores e invalidar a decisão. O fato é que em todos os treinamentos que desenvolvo, seja negociação, excelência de desempenho ou liderança, este é um dos pontos fundamentais que abordo, através de exercícios e simulações que levam a uma compreensão mais profunda da questão e de todas as suas implicações.
Conclusão: O sucesso ou fracasso de qualquer pessoa, não importa quem seja, inclusive Jorge Paulo Lemann, que é o homem mais rico do Brasil e uma das maiores fortunas do mundo, se deve a qualidade das suas decisões e ações. Um outro ponto importante em termos de decisão e ação é que quem quer ter sucesso estuda o sucesso. E é sempre bom lembrar de Isaac Newton que quando perguntado pela razão de suas descobertas respondeu: “Eu vi mais longe porque subi em ombros de gigantes”.

terça-feira, 5 de maio de 2015

LEI DA ENTREGA

O que fazer em caso de atraso ou erro na entrega de produto

ECONOMIA & NEGÓCIOS
Cláudio Considera

Fique atento na hora da compra para resguardar seus direitos quanto à entrega do produto no prazo combinado

(Foto: FreeImages)
Em vários Estados há leis determinando que fornecedores de bens e serviços fixem uma data e um turno para a prestação do serviço ou entrega. No caso de São Paulo, uma lei de 2009 era desrespeitada e os lojistas se valiam dela para cobrar taxa pela entrega agendada. Por isso, em 2013 foi sancionada outra lei , a 14.951,  proibindo as empresas que atuam no Estado de São Paulo de cobrar taxa adicional por entrega agendada de produtos e serviços.
A Lei da Entrega determina que quando for feita a compra ou a contratação do serviço, o consumidor receba por escrito qual a data e o período do dia em que a entrega ou serviço serão feitos. A exigência vale para todas as empresas que atendam consumidores de São Paulo, mesmo que estejam instaladas em outros Estados. Devem ser fixados , na hora de fechar o negócio, data e turno para a realização dos serviços ou entrega dos produtos, sem qualquer ônus adicional aos consumidores. A lei estipula que o turno da manhã compreende o período entre 7h e 11h; e o da tarde entre 12h e 18h; turno da noite entre 19h e 23h.
Na hora da compra o consumidor deve receber documento informando data e o turno e com identificação do estabelecimento, da qual conste a razão social, o nome de fantasia, o número de inscrição no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas do Ministério da Fazenda (CNPJ/MF), o endereço e o número do telefone para contato.
Quando as entregas não são feitas conforme agendado ou ainda existam dificuldades nos agendamentos em horários adequados, o consumidor deve  primeiro fazer contato com o serviço de atendimento ao consumidor da empresa e, se não houver solução rápida, deve recorrer às entidades de defesa do consumidor.
Para se prevenir, na hora da compra o consumidor deve exigir  que no pedido ou recibo do pagamento conste a data da compra e da entrega. Se, ao preencher a nota, o fornecedor não escrever nela a data combinada para entrega, o próprio consumidor deverá escrever, diante dele.
Para fazer valer o cumprimento do Código de Defesa do Consumidor é fundamental que o que foi combinado entre as partes esteja documentado. Se o consumidor não conseguir resolver o seu problema sozinho deverá procurar a ajuda de instituições de defesa do consumidor, como a Proteste, que farão a intermediação e/ou irão orientá-lo para buscar a Justiça.
O cumprimento da Lei de Entrega favorece o comércio eletrônico, pois permite que as empresas se organizem melhor e evita o retrabalho nos caso em que a compra retorna à transportadora por não ter ninguém para recebê-la.
Lei da Entrega: saiba como agir em cada caso 
Entrega atrasada: se o produto não é entregue no prazo combinado, fica caracterizado o não cumprimento da oferta, o que dá ao consumidor o direito de:
- exigir que o produto seja entregue imediatamente;
- aceitar produto equivalente;
- cancelar a compra e exigir a devolução do valor pago corrigido.

Entrega trocada: o consumidor poderá:
- recusar-se a receber a mercadoria, escrevendo os motivos na nota de entrega, caso o consumidor perceba o engano no ato do recebimento;
- pedir, por carta, a restituição da quantia paga ou o abatimento proporcional ao preço.

Se a entrega foi feita na ausência do comprador, o consumidor deve fazer a reclamação por escrito. E, se o produto entregue foi mais caro que o encomendado, o consumidor deve decidir se fica com a mercadoria recebida e paga a diferença ou devolve o produto e solicita a entrega do original.
Entrega incompleta: se o consumidor recebeu a mercadoria incompleta, faltando uma peça ou acessório, pode optar por receber os elementos entregues ou devolvê-los. Pode também seguir os procedimentos da entrega atrasada.
Entrega de produto defeituoso: o consumidor tem 30 dias para comunicar por carta o defeito, em caso de bens não duráveis, e 90 dias em caso de produtos duráveis. O prazo para reclamar começa a ser contado no momento em que o defeito for descoberto. O fornecedor ou lojista tem 30 dias para reparar o erro. O não cumprimento deste prazo dá ao consumidor o direito de exigir uma das seguintes alternativas:
- a substituição do produto por outro igual, mas em condições de uso;
- a restituição do valor pago monetariamente corrigido;
- abatimento proporcional do preço na compra de um produto defeituoso.

Em alguns casos, um telefonema ao SAC (serviço de atendimento ao consumidor) do fabricante ou da loja não é suficiente para sanar o problema. Uma reclamação por escrito deve complementar a iniciativa do consumidor. Essa carta deverá seguir com aviso de recebimento para assegurar a entrega da correspondência.

terça-feira, 10 de março de 2015

Como vender mais e conquistar novos clientes

Editado por Camila Lam de EXAME.com

Como transformar o lead em cliente? Quando uma pessoa busca um produto ou serviço ela demonstra que está interessada. Nesse momento é muito importante que a empresa esteja bem preparada para receber este possível cliente. Na Viva Eventos, por exemplo, temos um processo de atendimento bem detalhado para obter sucesso e efetuar a venda.
Na era digital, o primeiro passo é ser ágil no retorno. Quanto antes você fizer o contato, maiores serão suas chances, pois a rapidez no atendimento é uma excelente primeira impressão. Além disso, vale lembrar que a sua empresa não será a única procurada pelo lead.
Ao fazer o primeiro contato é preciso que o comercial esteja bem treinado e isso só é possível quando existe um processo bem estruturado. O comercial precisa dominar o seu produto, conhecer os concorrentes e exaltar os pontos positivos que a empresa oferece. Não saber responder algum questionamento pode passar insegurança para o potencial consumidor.
Claro que esse contato deve ser feito da maneira cordial para que o lead valorize a atenção recebida como um bom atendimento e não como aquele comercial agressivo que pretende vender o seu produto de qualquer maneira.
Ter imagens, vídeos, apresentações, um bom material publicitário e brindes ajudam na construção da imagem da empresa e do produto. E, no caso de um atendimento presencial, ter um local adequado e organizado para receber o cliente pode ser um diferencial.
Esse é momento de encantar, pois o atendimento tem que ser feito com muita clareza para que o comercial ganhe a confiança do cliente e concretize a venda. Algumas vezes, o lead ainda não estará preparado para fechar o negócio porque quer pesquisar um pouco mais.
É necessário que você tenha um bom material para ensinar ao cliente sobre o produto. Algumas empresas de cosméticos, por exemplo, ensinam a fazer maquiagem, pois acreditam que pessoas que sabem se maquiar compram com mais frequência. Tente também deixar alinhada uma data para retornar, é boa maneira de você entrar em contato sem parecer chato.
Vitor Pedrosa é sócio-fundador e diretor de franquias da Viva Eventos.

terça-feira, 3 de março de 2015

Dois erros de digitação no CV podem acabar com suas chances

Por Adeline Daniele

É bom você começar a fazer uma revisão extra sempre que for enviar o currículo para uma empresa.
Uma pesquisa realizada pela Robert Half, nos Estados Unidos, descobriu que apenas dois erros de digitação no currículo são suficientes para desclassificar um candidato do processo seletivo.
Segundo a pesquisa, 46% dos gerentes seniores entrevistados afirmaram que desistem de contratar um profissional se ele tiver cometido dois erros de digitação em seu currículo. E para 17% dos executivos, uma única falha já justifica essa desistência.
A boa notícia é que os recrutadores têm sido mais compreensivos e tolerantes.
A pesquisa também revela que houve uma grande redução no número de gestores que descartariam candidatos por apenas um erro no currículo nos últimos anos.
Em 2006, 47% dos gestores afirmaram que apenas um erro seria necessário para eliminar um candidato do processo.
Em 2009 esse número caiu para 40% e, hoje, 17% dos entrevistados desconsiderariam o profissional.
No entanto, é a partir do segundo erro que muitos dos recrutadores desistem de um candidato.
Enquanto em 2006 37% deles eliminariam um profissional da competição por uma vaga, em 2014 esse número subiu quase dez por cento (46%).
Erros201420092006
Um17%40%47%
Dois46%36%37%
Três27%14%7%
Quatro ou mais9%7%6%
Os erros de digitação mais comuns são relacionados a datas e à concordância gramatical.
De acordo com o diretor de operações da Robert Half no Brasil, Sócrates Melo, a tolerância aos erros está ligada ao tipo de posição que está em disputa.
“Entre os gestores brasileiros, ela costuma ser baixa. O tipo de erro conta mais do que a quantidade”, diz.
Melo também afirma que um currículo cheio de falhas pode transmitir a imagem de um profissional de baixa qualidade para os recrutadores.
Segundo o executivo, a análise de um currículo é feita por vários aspectos, que envolvem desde a formação até as realizações do profissional.
Ele também alerta para o fato de que o documento deve comunicar as qualidades do candidato de forma clara e objetiva em, no máximo, duas páginas.

Óbvio, mas nem tanto: você não pode esperar que o cliente saiba de tudo

Sempre pergunte ao seu cliente se ele está entendendo suas explicações, se tem alguma dúvida.


Daniel Godri Junior, www.administradores.com
Há alguns anos, comprei a casa onde moro e meses atrás resolvi reformá-la. O piso, de 17 anos, precisou ser retirado. Então, comprei um porcelanato 62x62cm e pensei que seria ótimo, já que o pedreiro assentaria mais rápido um piso maior que o antigo. Ao ver o tamanho do piso, o pedreiro reclamou “você vai me matar com um piso desse tamanho”, e explicou que meu piso era irregular e que provavelmente ficariam pontas e desníveis visíveis.  Algo óbvio para quem trabalha com isso. Mas apenas para quem trabalha com isso.
O erro de profissionais de longos anos de experiência é pensar, erroneamente, que o óbvio para si é o óbvio para os outros.  E ignorar isso pode custar caro, como a perda de clientes, o desmanche de uma amizade, uma comunicação ruim. O cliente pode se sentir prejudicado por não saber o que você está falando ou o que você quer dizer com aquilo.
Por exemplo, quando uma pessoa quer comprar um computador. Se ela não é entendedora do assunto, não adianta o vendedor dizer que a máquina tem um processador “X” de 8 gigas ou memória RAM de 34 megabytes, porque ela não vai entender nada. Essa falta de informação pode gerar um desconforto na hora de fechar o negócio.
Evite tratar seu cliente como especialista. Isso dificulta a escolha do cliente pelo seu produto. Outro exemplo são médicos que não explicam o diagnóstico ou sequer revelam a doença. Certa vez minha esposa retornou ao pediatra com meu filho mais velho porque achou que o antibiótico não estava tendo resultado, pois depois de dois dias ele ainda tinha febre. E o médico perguntou “ué, você não sabe que infecção de garganta pode dar febre na criança depois de três dias mesmo ?”. Não, ela não sabia, porque ela não é médica.
Agora imagine que você foi ao médico e ouviu dele que você tem espondiloartrose anquilosante. A menos que você seja médico, se ele não explicar que essa é uma lesão na coluna que pode ser resolvida com relaxantes musculares, analgésicos e fisioterapia, você sairá do consultório achando que seus dias de vida estão chegando ao fim.
Um ótimo exemplo de empresa que não trata os consumidores como especialistas é a rede de restaurantes Outback Steak House. Ao te atender, o garçom pergunta se você já conhece o restaurante. Se não conhece, ele se abaixa na altura da sua mesa e explica como o restaurante funciona e lhe mostra o cardápio. Se você já foi outras vezes, ele elogia sua volta e se abaixa para anotar o pedido. Ou seja, eles adaptaram o discurso de apresentação da casa, que parece óbvio e comum em todo restaurante, com originalidade e respeito ao consumidor.
Pense sempre que o que comum e rotineiro para você pode ser algo inovador para a outra pessoa. Óbvio que não dá para ser flamenguista e vascaíno ao mesmo tempo, óbvio que um relacionamento não sobrevive a contínuas brigas, óbvio que comer depressa faz mal. Tudo isso pode parecer óbvio, mas para muita gente não é.
Sempre explique ao seu cliente como funciona a sua empresa, os métodos de pagamento, o prazo de entrega, por que o seu produto é mais resistente ou mais seguro que o do concorrente.
Além disso, adapte a linguagem a cada cliente. Um idoso, por exemplo, terá maiores dúvidas que um adolescente na hora de comprar um smartphone. Bem como é mais provável que uma mulher terá mais dificuldade que um homem na hora de comprar um carro.
Sempre pergunte ao seu cliente se ele está entendendo suas explicações, se tem alguma dúvida. E se você, cliente, não estiver entendendo nada do assunto, não pense duas vezes antes de questionar. Uma boa resposta para sua dúvida pode te ajudar a fechar o negócio.
Sei que este artigo parece óbvio, mas, obviamente, o óbvio nem sempre é tão óbvio assim, não é? 

segunda-feira, 2 de março de 2015

Não tem experiência profissional? Saiba o que colocar no currículo

Por Pâmela Kometani

Candidato a primeiro emprego deve destacar qualidades e cursos já feitos.
Voluntariado ou 'bicos' devem ser mencionados, dizem especialistas.


O que um candidato sem experiência deve colocar no currículo? É preciso "enchê-lo" com as suas habilidades e dizer o que quer aprender? Essas são algumas das dúvidas de quem está em busca da primeira oportunidade no mercado de trabalho.
Quando o recrutador vê a idade no currículo já imagina que o candidato não tem experiência, e isso não é visto como um problema. Ele deve sempre colocar em destaque o que tem de melhor: a formação escolar, um idioma, voluntariado e até uma experiência profissional fora do mercado formal”, orienta Flávia Mentone, gerente de diversidade e gestão de pessoas da Secretaria Municipal do Desenvolvimento, Trabalho e Empreendedorismo de São Paulo.
Conhecimentos em idiomas, informática e cursos extracurriculares ou profissionalizantes ajudam a compor a lista de habilidades que podem ser apresentadas. De acordo com Dorileia Almeida, gerente da filial de Recife da Gi Group Brasil, empresa internacional de recursos humanos, o candidato pode destacar alguma característica que tenha relação com a vaga. “É interessante indicar se ele possui algum conhecimento específico do cargo para qual está concorrendo, assim como sinalizar se possui vivência em alguma atividade específica”, diz.
'Bico' é válido
Flávia diz que os recrutadores valorizam os "bicos" já feitos por quem está começando. Vale citar no currículo trabalhos em uma empresa familiar, em organização de pequenos eventos e até um trabalho temporário. 

Segundo as especialistas, candidatos que fizeram voluntariado e intercâmbio devem informar as experiências. Elas contam muitos pontos, porque mostram que o futuro funcionário gosta de aprender e de participar de diferentes projetos.
Projeto de iniciação científica, trabalhos de conclusão de curso (TCC) e atuação em empresa júnior da faculdade também podem ser mencionados.
Nota não precisa
Por outro lado, notas obtidas na escola ou na faculdade não devem entrar no documento, a não ser que a vaga seja acadêmica. “Caso o candidato alcance algum mérito acadêmico e considere importante incluí-lo em seu currículo, não vejo problemas, mas é importante utilizar o bom senso e não 'copiar' o seu histórico escolar para o currículo”, afirma Dorileia, da Gi Group Brasil.

O candidato deve sempre ficar atento ao tamanho do currículo e deve tomar cuidado para não colocar informações desnecessárias. “O recrutador tem uma pilha de currículos na mesa e os muito longos mal são vistos”, ressalta Flávia.
O ideal é evitar escrever habilidades genéricas, como proatividade e criatividade, e destacar os conhecimentos técnicos e habilidades adquiridas em cursos.
Veja passo a passo para montar o currículo para 1º emprego:
1) Dados pessoais
Informações que devem constar no início do currículo: nome completo, idade, estado civil, endereço, cidade, região, telefone (celular, residencial ou para recados) e e-mail.
2) Objetivo
Candidato pode listar o cargo de interesse. Caso ele não tenha uma posição específica, pode citar a área de atuação, como logística, administrativa, entre outras.
3) Formação acadêmica
Deve ser informado o último grau de escolaridade, ou seja, quem não tem nível superior deve citar o nível médio, e assim por diante. A descrição deve ter o nome da instituição, curso e ano de conclusão ou previsão de término.
4) Idiomas, informática e outros cursos
Como o candidato não possui experiência, ele deve mostrar que tem outras habilidades que poderão ser utilizadas no emprego.
5) Voluntariado e outras experiências
As experiências no mercado informal são válidas e podem ser citadas. O voluntariado é muito valorizado pelas empresas.
6) O que não colocar
- Foto (só quando o empregador solicitar)
- Número de documentos
- Título “currículo vitae” ou “currículo”
- Nome de pais, marido ou esposa e filhos
- Referências pessoais (contatos de pessoas que podem falar sobre o profissional não devem ser indicados)
- Pretensão salarial
- Cartas de referência
- Certificados de cursos realizados
- Data e assinatura
- Habilidades genéricas, como proatividade e criatividade
Objetivo
Flávia, da Secretaria do Trabalho de São Paulo, lembra que mesmo sendo um currículo para o primeiro emprego, o candidato não deve ser muito genérico. Não vale, por exemplo, escrever que quer apenas uma colocação profissional ou um emprego. “É importante colocar o cargo ou o objetivo, pois quando o recrutador ler o currículo ele vai ver que a pessoa sabe o que quer. E na entrevista, o candidato pode falar que tem interesse em aprender e de se desenvolver.”

“É primordial que o objetivo esteja explícito com o intuito de minimizar abordagens desnecessárias. É válido pontuar para quais cargos ou funções específicas o candidato tem interesse”, afirma Dorileia. É possível, por exemplo, dizer que quer atuar na área administrativa.
Para os candidatos que querem falar o quanto desejam aprender, Flávia indica que isso seja informado no corpo do e-mail, quando o currículo é enviado pela internet, ou durante a entrevista. Segundo ela, não vale colocar essa informação junto com o objetivo ou como um parágrafo solto no meio do documento.
Fuja das gafes
Segundo Dorileia, erros gramaticais, informações incoerentes, como nível de inglês desatualizado, formação acadêmica com informações incorretas e omissão de dados que impossibilitam o contato com o candidato estão entre os principais erros cometidos por candidatos que estão em busca do primeiro emprego.

Flávia também lembra que alguns candidatos "jogam contra", informando as habilidades que não possuem em vez de valorizar seus pontos positivos. “Se ele não tiver determinada experiência não precisa colocar que não tem. Ele não deve falar mal de si mesmo.”
Currículos com letras ou fundo coloridos e com desenhos não são considerados inovadores e não são bem vistos pelos recrutadores. A opção mais segura ainda é apostar no padrão tradicional.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Quem seremos nós, sem água?

Caberá a essa geração imperfeita enfrentar os desafios de um futuro que chegou antes
 Por Eliane Brum*  |  Fonte: El País
Quando a gente abre a torneira em São Paulo e não sai nada, e sabe que logo chegará o dia que não haverá nada no dia seguinte e no dia seguinte ao dia seguinte e assim por um tempo que ninguém sabe quanto será e quem diz que sabe mente, descobrimos que nos tiraram muito mais do que água. Essa é a parte aterrorizante. E é aterrorizante para além das vidas secas. O terror é menos pelo que só agora faltou, mais pelo que nunca existiu. O terror é dado pela perda das ilusões de que tudo estava sob controle. E, de repente, aqueles que repetiam que estávamos todos bem bem mostraram que, na verdade, estamos todos bem perdidos. O estado de torpor dos moradores de São Paulo foi perfurado pela realidade, abriu-se um rombo que talvez seja impossível fechar. No fundo desse buraco não há vazio, mas espelho. É nesse ponto que existe algo de fascinante. É quando o morador de São Paulo vira todos, encarna o humano dessa época, uma catástrofe diante da catástrofe. Nós, o futuro que chegou primeiro.
Quem seremos nesse mundo em que o clima se mostra alterado, nesse planeta agora mais hostil pela nossa ação? Que filosofia produziremos? E que sentidos criaremos?
São Paulo sem água é uma imagem poderosa. A cidade expandida em que mais de 20 milhões vivem à beira de um rio que matamos. A cidade que virou estufa, abarrotada por carros que se movem mais e mais lentamente, queimando combustíveis fósseis e lançando gases na atmosfera. A cidade que desmatou o entorno dos mananciais e desprotegeu-se. A cidade em que, quando a chuva cai, parece que evapora antes de chegar ao chão convertido em concreto e, nas tempestades, alaga e é destruída porque o cimento não pode absorver a água. As chaminés das fábricas do século 20 da São Paulo “que amanhece trabalhando”, assim como os canos de descarga dos carros de cada dia, são falos decaídos. As ilusões de potência e de superação, o sem limites da modernidade, viram pó na cidade imensa, transformando São Paulo num monumento que ela não sonhou ser – e nós em seres trágicos.

O dia em que as autoridades ruíram

O momento em que a máquina do mundo se abriu para a maioria foi no final desse janeiro, ao ser anunciado que poderia haver um rodízio 5X2 – cinco dias sem água, dois com água. A classe média correu a comprar caixas d’água extras e galões, houve quem estocou centenas de litros, os baldes viraram objetos de desejo. Lembrou “Tubarão”, o filme de Steven Spielberg que talvez tenha inaugurado o conceito de blockbuster, na cena em que o monstro emerge com uma boca capaz de palitar os dentes com o barco que pretendia caçá-lo e o xerife da cidade diz, na frase que ficou antológica para quem gosta de cinema: “Vamos precisar de um barco maior”. Parece que, por aqui, nós vamos precisar de um balde maior.
Nosso momento presente é enorme. Precisaríamos ter na liderança um estadista, uma pessoa capaz de botar o interesse público acima de suas ambições eleitorais, alguém que compreende a amplitude do que está em jogo, um político com visão de século 21. Nosso desamparo é maior porque não temos essa figura nem no governo de São Paulo nem no governo do país. Temos no comando do estado alguém com uma mentalidade de vereador de cidade pequena. E nada contra vereadores de cidade pequena, existem os bons, apenas que para um governador o olhar precisa ser muito mais amplo e a política exercida num outro nível. E, no Planalto, temos uma presidente vendida como “gerente”, o que não é exatamente o que se espera de alguém que comanda um país, mas, como sempre pode piorar, se mostrou uma má gerente ainda no primeiro mandato.
O futuro chegou antes. E justamente no momento em que as instituições políticas e os grandes partidos estão desacreditados, em que se pode mentir para ganhar a eleição e dizer o contrário em seguida. É assim que a população descobre que as autoridades não só falsearam a realidade como não sabem o que fazer agora que a calamidade se instalou. As autoridades desautorizaram-se, num fenômeno político tão grave quanto complexo. E a população encontrou-se só e com o monstro na sala.
Se a realidade é assustadora, também é muito interessante. Nenhum dos governantes que deixaram a situação chegar a esse ponto – sem esquecer que Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo rumam no mesmo sentido – estão no poder por um processo autoritário. Não, estão lá porque a maioria dos que hoje se sentem desamparados votaram neles. No caso de São Paulo, o PSDB está indo para 24 anos no governo, há uma geração de paulistas que nasceu, passou pela infância e pela adolescência e virou adulto sob o comando da mesma sigla e nenhum alternância de poder. Dilma Rousseff está no segundo mandato, e o PT vai para 16 anos no Planalto. Geraldo Alckmin se elegeu no primeiro turno quando a “crise da água” era evidente, mesmo que o governador tenha negado a gravidade da realidade durante toda a campanha. Elegeu-se no primeiro turno em parte porque dava aos eleitores a chance de continuar fingindo que estava “tudo sob controle”. E, assim, ninguém precisou se mover, mudando velhos hábitos perniciosos e assumindo a responsabilidade de economizar água.
É como disse no Twitter André Vallias, poeta e designer gráfico, referindo-se à situação da água e da energia: “O Brasil não é o País do Futuro, mas da Fatalidade: atrás dessa palavra nossas autoridades se escondem para fugir à responsabilidade”. E isso vale também para os prefeitos, em especial para Fernando Haddad (PT), em São Paulo, e os das cidades da Grande São Paulo, que parece que acordaram só ontem, assim como para os parlamentares desse Congresso, que iniciam um novo mandato atolados na velha lama viciada, fazendo com que a maioria sequer espere qualquer coisa deles, a não ser mais do pior. Mas, se a responsabilidade das autoridades eleitas é muito maior e elas têm de responder pelo que não fizeram e pelo que não disseram, tanto quanto pelo que fizeram e disseram, numa democracia nenhum cidadão é inocente, ainda que alguns possam ser menos culpados do que outros.

A hora de se inspirar nos jovens e virar gente grande

Agora que as figuras paternas e maternas ruíram – e a gente tem certeza disso quando, diante da catástrofe em curso, elas mandam rezar para um Pai maior ou invocam São Pedro – seria uma boa hora para virar gente grande. E recuperar a amplidão da política, como nos lembraram os manifestantes de 2013. E continua a nos lembrar o Movimento Passe Livre em 2015, com os protestos pela tarifa zero. Precisamos ser eternamente gratos a esses jovens tão jovens, porque têm sido eles os verdadeiros adultos, no sentido de apontar que o rei está nu (e perdido) e somos nós que temos de assumir a responsabilidade de pensar a cidade. Cada vez que eles vão para as ruas contra o aumento da tarifa do transporte público, o que fazem é uma denúncia profunda do modelo desastroso de ocupação urbana e da opção criminosa pelo transporte privado e individual. Lembram-nos de que, sem a liberdade de ir e vir, não somos nada além de coisas. São eles que se movem diante da paralisia alienada dos mais velhos – e a experiência de literalmente se mover nas manifestações, por ruas de uma cidade que não se move, é de uma enorme força simbólica.
Na catástrofe da água que se anuncia já existem focos de cidadania consolidados, outros surgindo agora, que reúnem cidadãos que assumiram a responsabilidade de participar das decisões e de pressionar as autoridades. Enquanto o governador de São Paulo diz que não há certeza de que será preciso fazer rodízio, cidadãos começam a reivindicar que, sim, é preciso haver rodízio agora, neste instante, já que não é possível voltar atrás no tempo e começar a fazê-lo meses e até anos antes, o que teria tornado a situação de hoje menos desesperadora. Gente que percebeu que deveríamos desde sempre ter compreendido que não é possível consumir água dessa maneira descuidada, como se os recursos fossem infinitos, nem jamais deveríamos ter nos acostumado a abusos como usar água potável para dar descarga no banheiro ou deixar a água ir embora sem criar sistemas de reúso. Cidadãos que sabem que é preciso mudar não na emergência, mas para sempre. Enquanto o governador, mais uma vez, prioriza suas ambições eleitorais e ainda está “estudando” se haverá um plano de contingência, há cidadãos que decidiram lidar com a realidade e pressionar as autoridades a tomar decisões reais num mundo real, antes que só reste o êxodo.
Este é um dos poucos efeitos positivos da catástrofe que se anuncia. Aponta que ainda temos um caminho se cada um assumir a sua responsabilidade, incluindo aí a de pressionar o poder público a assumir a sua própria. Pertence a esse conjunto de reação a Aliança pela água, reunindo várias organizações que superaram suas diferenças em nome da emergência comum. Assim como os coletivos de jornalismo independente, entre eles a Mídia Ninja e a Ponte, que se uniram para documentar o colapso da água criando “a conta da água” na internet. Diante da pouca confiabilidade da informação oficial e da certeza de que foram enganadas por tempo demais, por todos os lados pessoas estão se juntando na busca de abarcar a dimensão do que está acontecendo e pensar no que fazer e em como viver daqui para a frente.
Um desses encontros aconteceu em 28 de janeiro na Casa de Lua, uma organização feminista que chamou os moradores de São Paulo pelas redes sociais para debater, produzindo um momento muito rico, tanto na intensidade das angústias quanto na sinceridade das respostas em construção. O encontro pode – e deve – ser assistido aqui. Entre os vários momentos interessantes, uma mulher fez a pergunta: “Eu sou uma pessoa comum, uma microempresária. Eu quero saber o que fazer, como eu posso ajudar”. A resposta de um dos debatedores, que restringiu-se a alterações no perímetro da casa e da família, não a satisfez. Ela então retrucou: “Vocês não estão entendendo. Eu acho que chegamos a esse ponto por que cada um sempre pensou em resolver apenas o seu problema. Eu quero saber o que posso fazer não para mim, mas para todos”.

“A negação como política de governo e como defesa psíquica”

A psicóloga paulistana Camila Pavanelli de Lorenzi, 32 anos, é uma das que está fazendo alguma coisa, se moveu. Ela começa a se tornar uma referência nas redes sociais por causa de seu Boletim da Falta D’água, criado em outubro de 2014. Nessa conversa comigo, ela conta como passou a dividir o doutorado na Universidade de São Paulo – sobre “os conceitos psicanalíticos de sublimação e realidade”, a partir da série de TV “The Wire” e de dois livros nos quais a série é baseada – com sua investigação pessoal sobre a catástrofe em curso. É revelador que seja uma psicóloga a tentar compreender o que as notícias da água dizem para além do que está escrito. Os grifos são meus, os parênteses são dela:

Como foi que começou a fazer o boletim?
Camila – Comecei numa noite em que eu estava especialmente de saco cheio de passar o dia lendo notícias – tanto sobre a falta d’água quanto sobre o posicionamento oficial do governo de que não faltava água – e decidi reunir e resumir tudo o que eu havia lido num texto só. Postei no Facebook. Compilar essas informações me trouxe algum alívio. Eu precisava (preciso ainda) entender o que diabos estava acontecendo. Havia muita coisa sendo publicada sobre a falta d’água, mas em veículos diferentes – era difícil ter uma visão mais abrangente da real gravidade da situação. Então fiz essa compilação de notícias naquela noite. Fiz a mesma coisa na noite seguinte, com o mesmo objetivo de me situar melhor em meio ao caos – e, de quebra, compartilhar o que eu estava lendo com meus amigos. E depois não vi motivos para parar. Eu sentia (sinto ainda) que não havia uma linguagem para falar sobre a chamada crise da água, e que era preciso (é ainda) criar essa linguagem. Depois de uma semana postando os boletins no Facebook, várias pessoas começaram a sugerir que eu criasse um blog ou tumblr só para eles. Achei que fazia sentido, e fiz um tumblr. Mas continuo postando os boletins na minha página pessoal do Facebook também, para facilitar os compartilhamentos.

Como você faz esse acompanhamento cotidiano?
Camila – No começo eu fazia todo dia. Acessava sites de notícia, fosse da grande mídia ou da mídia alternativa, e os órgãos oficiais do governo. Aí uma coisa levava a outra. Saía uma notícia sobre um processo ou decisão judicial, eu ia atrás desse documento. Saía uma notícia que não diferenciava muito bem os conceitos de pluviometria e vazão, eu ia atrás de um manual de hidrologia para entender os conceitos um pouco melhor. E assim fui construindo uma narrativa sobre a falta d’água no estado de São Paulo, dia a dia. Parcial, informal, incompleta, amadora. A minha narrativa do que estamos vivendo, enfim.

Como são seus dias desde então?
Camila – No ano passado, dediquei cerca de duas horas todas as noites à escrita do boletim. Passei a frequentar menos a academia. Passei a escrever menos no meu blog pessoal. Passei a escrever menos e-mails longos para os amigos. Neste ano, ainda não sei dimensionar quantas horas essa maluquice está me tomando. Ainda estou aprendendo a fazer um boletim semanal. Acabei de criar uma conta no Twitter (@bolfaltadagua) para me ajudar, para reunir uma pré-seleção de links. Vou tuitando e retuitando ali tudo o que leio de interessante. Desse mundaréu de notícias, vou selecionar algumas para costurar a narrativa da semana.
  
O que você faz quando não está olhando para a água ou para a falta dela?
Camila – Trabalho na minha tese, cozinho, cuido da casa, escrevo no meu blog. Levo a mais pequeno-burguesa das vidas, em suma.

O que te pega mais nessa questão da água?
Camila – A negação. Sobretudo a negação como política de governo. Eu não entendo nada de água, meio ambiente, gestão de recursos hídricos, nada disso. Mas eu entendo muito de negação como defesa psíquica. A negação foi catastrófica na minha vida pessoal e precisei de anos de análise para começar a elaborar alguns lutos (para não soar muito enigmática: minha mãe morreu quando eu tinha dez anos e sempre encarei isso como um fato normal e corriqueiro da vida, como se não fosse nada demais, “é chato, mas acontece” etc. Foi com a análise que pude sentir pela primeira vez a tragédia que foi eu ter perdido a minha mãe). Aí, de repente, eu vejo a negação sendo adotada pelo governo do estado como forma de lidar com uma crise sem precedentes na história do Brasil. E isso evidentemente tem efeitos sobre a população. Isso me fascina, na verdade: as relações entre a negação como política de governo e a negação como defesa psíquica. Porque ninguém, de verdade, acredita que a água vai acabar (ou, se acredita, não consegue conceber o que significa isso). E é compreensível que seja assim. Como acordar de manhã, ir para o trabalho, cuidar dos filhos – levar a vida de sempre, enfim – quando se tem a perspectiva de que a água pode acabar dentro de poucos meses? Melhor acreditar que a crise não é tão grave assim. E acabou que tivemos a união da sede com a vontade de beber. De um lado, a população que desejava ouvir que estava tudo bem e que poderia seguir com a vida normalmente; de outro, um governo que realizou plenamente esse desejo, garantindo que não faltava nem faltaria água em São Paulo.
  
Você termina seus boletins dizendo: “Pode entrar em pânico que segunda que vem tem mais”. Vi no debate da Casa de Lua que essa questão, entre ter calma, como foi colocado por outra debatedora, e a sua conclamação/autorização para, ao contrário, entrar em pânico, te perturbou. O que tem pensado sobre isso?
Camila – Fiquei perturbada, sim. Nos primeiros dias eu concluí o boletim com “calma que amanhã tem mais”. Mas logo me dei conta de que o problema era justamente que estávamos calmos demais. Pânico, para mim, não é “ó meu deus vamos todos morrer mesmo então melhor se matar antes”. Pânico, para os fins do Boletim da Falta d’Água em SP, é o oposto da letargia institucionalizada. É o oposto de “não falta água, não faltará água em São Paulo”. É o meu manifesto antinegação. É um apelo para que as pessoas se informem sobre o que está acontecendo e, a partir daí, tomem as ações que julgarem mais adequadas. Como não acredito em ação sem reflexão, acho importante estar bem informado para resolver o que fazer. E isso em todos os níveis: desde construir cisterna em casa até exigir providências das autoridades, passando pela organização de redes de solidariedade nos bairros e comunidades.
(Fim da conversa com Camila)

A disputa da narrativa já começou

A palavra “crise” me parece muito pequena diante do que já está desenhado. Talvez coubesse anos atrás, momento em que, se tivesse sido pronunciada, assumida e enfrentada, poderia ter tido seu impacto reduzido. Hoje, não mais. Alguns têm sugerido a palavra “colapso”. E colapso pode dar conta da impossibilidade de viver como antes, da convicção de que não existirá mais “a vida de sempre”, de algo que não pode ser refeito sobre as mesmas bases. O que se anuncia me parece poder ser representado por “catástrofe”, palavra que escolhi usar mesmo correndo o risco de ser chamada de “apocalíptica”, como já se acostumaram a ouvir todos aqueles que alertam para os rumos perigosos de São Paulo e do país, assim como para os desafios da mudança climática do planeta há anos, décadas. Já padecemos demais com os eufemismos esgrimidos pelas autoridades. Mas, ainda que saibamos que as palavras são importantes, jamais podemos esquecer que os extremos de nossa condição são irrepresentáveis, escapam da linguagem. É também a batalha da linguagem que travaremos – e nela está também tudo aquilo que não vira palavra.
É isso que Camila também diz quando afirma que ainda não encontrou a linguagem para expressar o que vive. Ela, assim como todos aqueles que, individual ou coletivamente, se mobilizaram para documentar a catástrofe da água são filhos desses tempos de internet e têm enorme importância para a construção da realidade do dia seguinte. Quanto mais múltiplas forem as versões, melhor para a busca das verdades dos fatos e para a interpretação das subjetividades. A disputa narrativa já começou, e as armadilhas são proporcionais ao tamanho do desafio.
Uma versão bastante difundida por alguns noticiários, em especial os da TV aberta, tem sido a de que o problema dos apagões de energia seriam decorrentes das hidrelétricas que ainda não foram concluídas, como Belo Monte, ou das que ainda não foram iniciadas. Em seguida, vem o culpado: “por atrasos/dificuldades no licenciamento ambiental”. Por que eu me refiro à escassez de energia quando estava falando da escassez de água? Primeiro, porque são temas relacionados. Segundo, porque aqui claramente é demonstrada a repetição do discurso da dissociação e da negação. E foi também a dissociação e a negação, em todos os planos, que nos trouxe até o estado atual de calamidade.
Talvez nunca tenhamos precisado tanto fazer relações e compreender o mundo dentro de uma teia de ação e consequências como hoje. A narrativa que compartimenta falseia e informa mal. Está superada em todas as áreas, inclusive na educação. No momento em que sofremos as consequências da irresponsabilidade de nossas escolhas, em que as questões ambientais devem estar no topo das nossas prioridades se quisermos ter alguma chance, em que executivos das grandes empreiteiras que constroem as grandes hidrelétricas e que são as grandes financiadoras de campanhas políticas estão na cadeia por conta da operação Lava Jato, tenta-se de novo e sempre colocar ambientalistas e preocupações ambientais como um “entrave”. Por que e a serviço de quem? Ignorância, má fé ou ambas?
Um exemplo. A falta de água se anuncia como catástrofe, mas, ao mesmo tempo, o governo federal quer concluir Belo Monte, no rio Xingu, apesar de todas as irregularidades e da denúncia de etnocídio indígena, e barrar o Tapajós. Aqui, há algumas relações que podem ser feitas: 1) as hidrelétricas têm grande impacto no desmatamento e na destruição ambiental, não apenas pela obra em si, mas também pelo desequilíbrio que provocam ao expulsar ou realocar comunidades, assim como a quantidade de migrantes que atraem e todas as consequências envolvidas nisso; 2) a devastação da Amazônia, onde hoje estão sendo feitas e planejadas as grandes barragens, já é dramática e compromete o clima; 3) há cientistas etrabalhos científicos de alto nível mostrando que a floresta amazônica tem um papel estratégico na regulação do clima do Brasil e do planeta, o que envolve a questão das chuvas no sudeste do país; 4) os reservatórios das hidrelétricas ficam baixos quando a chuva é escassa, comprometendo o abastecimento da energia; 5) priorizar hidrelétricas na Amazônia e culpar a resistência a elas pelo desabastecimento é encobrir que o governo federal não fez o necessário investimento na diversificação de fontes de energia; 6) é também escamotear que, em vez de conscientizar a população da necessidade de poupar, porque os recursos são finitos, o governo federal fez exatamente o contrário disso, estimulando o consumo; 7) os enormes problemas sociais e ambientais causados pelas hidrelétricas, e neste quesito Belo Monte é o nosso atual mostruário (ou “monstruário”, como alguns preferem), são causados também porque o processo de licenciamento ambiental não é respeitado nem as condicionantes legais, aquilo que é preciso fazer para que a obra possa ser realizada com danos menores, não são cumpridas.
Em resumo: a verdade é muito mais complicada e atrapalha os poderosos interesses envolvidos. Os links dos últimos parágrafos são de grande importância para quem compreender que precisa compreender o que está em jogo e participar das decisões. Se pode emergir algo de positivo desse momento que vivemos é o de fazer com que questionemos a nossa relação com o meio ambiente, assim como o nosso lugar num planeta cada vez mais hostil pela nossa ação, dando-nos a chance de nos tornarmos pessoas capazes de enfrentar os desafios dessa época, que, como qualquer um pode perceber, são enormes.
O que está em jogo não são obras, mas nossa relação desastrosa com o meio ambiente, nossa dissociação com a natureza e nossa ignorância. Ignorância no sentido de desconhecer até mesmo que é preciso conhecer. É imperativo romper com a negação. E podemos começar a fazer isso aumentando nossa leitura crítica e construindo as relações necessárias. Não custa lembrar sempre que, como diz a frase famosa, “na guerra, a verdade é a primeira vítima”.

Os possíveis cenários da “guerra da água”

Quem seremos nós quando a água acabar? Tudo indica que saberemos muito em breve. Uma reportagem de O Estado de S. Paulo mostra que, seis anos atrás, um estudo envolvendo 200 especialistas mostrou ao governo paulista uma projeção do que aconteceria se a crise não fosse enfrentada. O relatório chama-se “Cenários ambientais 2020”. Nele, projetava-se, a partir das informações disponíveis, o que aconteceria até este ano caso medidas não fossem tomadas. O objetivo do estudo era estabelecer planos de ação para impedir que os cenários mais pessimistas se realizassem – ou seja, para evitar a realidade de hoje.
É aterrador de várias maneiras, a começar pelo fato de que o estudo encomendado pelo governo do PSDB foi ignorado pelo governo do PSDB, resultando no que está aí. Mas é aterrador também pelo cenário sugerido no documento como o mais provável. O texto é escrito como se o narrador já estivesse em 2020 e tudo já tivesse acontecido.
Diz a reportagem: “O estado (de São Paulo) teria assistido nesse período (2015) a um ‘conflito pelo uso dos recursos hídricos’, que desencadeou uma ‘guerra da água’ entre algumas regiões. Essa guerra teria começado após ‘um ano atípico de chuvas, com precipitações muito abaixo do esperado’”. O documento diz ainda: “O ano de 2018 significou um marco na história do uso da água no estado de São Paulo e os problemas verificados podem ser considerados uma continuação daqueles da crise de 2015. Em determinadas regiões, em função do uso intensivo de agrotóxicos (defensivos agrícolas) e fertilizantes (adubos), as águas superficiais e subterrâneas foram afetadas, comprometendo o abastecimento público de alguns municípios. As ações judiciais se multiplicaram, no rastro das manifestações populares que reivindicaram o abastecimento público em detrimento do agronegócio. A Agência Nacional de Águas (ANA) disponibilizou técnicos que auxiliaram na mediação do conflito. No auge da crise, prefeitos e vereadores aprovaram pacotes com leis restringindo temporariamente atividades econômicas de uso intensivo de água”.
Esta é a projeção realizada em 2009 – e ignorada. Agora, estamos no presente, em 2015, ano em que a “guerra da água” começaria.
Que impacto terá a falta de água nos empregos? Como farão os pais para trabalhar se os filhos ficarem sem escola e sem creche? O que acontecerá com os doentes e os velhos? Que tipo de inferno ainda maior se tornarão os presídios e as instituições para crianças e adolescentes infratores? Como será nos hospitais se as doenças aumentarem? Será que devemos tentar fugir de São Paulo?
Estas são algumas das perguntas que aparecem nos debates sobre a água, vindas de uma plateia cheia de angústia diante da incerteza de um futuro que é logo amanhã. Da experiência concreta da realidade vem o exemplo da cidade paulista de Itu, no ano passado, quando donas de casa foram para as ruas com tomates e ovos e seus filhos com pedras, quando carros-pipa precisaram de escolta policial, quando surgiram traficantes de água, quando as pessoas foram assaltadas depois de horas na fila para encher um galão ou um balde. Quando os assaltantes queriam não mais dinheiro, mas água. A Grande São Paulo se tornará Itu, multiplicada por milhões?
Depende de nós construir, coletivamente, uma resposta que não seja a barbárie do individualismo e do salve-se quem puder ou quem tem mais dinheiro. Os mais ricos podem sair da cidade, a classe média vai ter que aprender com os mais pobres, que há muito estão submetidos ao regime de rodízio de água sem que ninguém se importe além deles, como é que se vive na escassez. O que não podemos permitir é que a catástrofe da água seja reduzida a um problema de segurança pública, com as forças de repressão do Estado a serviço dos mesmos de sempre, como já se tornou um hábito no tratamento das questões mais profundas, exatamente para desviar o foco, esvaziar o conteúdo e escapar das responsabilidades.
Para começar, precisamos entender que o que parece anormalidade, exceção, é possivelmente a normalidade daqui em diante. São Paulo apenas antecipa o futuro por todos os superlativos com os quais foi construída. Precisamos nos preparar para um clima de extremos, nosso mundo já é pior. E é pior, na compreensão de 97% dos artigos científicos sobre o clima, por causa da ação humana sobre o planeta. Assim, precisamos mudar mesmo. E a água é apenas o tema mais urgente que exige nossa participação nas decisões da cidade, do estado e do país – do mundo. E está relacionada com as principais questões socioambientais. A água não pode mais ser vista como mercadoria.
Não há tempo para formar uma geração que compreenda os desafios desse momento histórico. Teremos de enfrentá-los com os homens e mulheres imperfeitos de nossa época – arrogantes, consumistas, egoístas e inconsequentes, ainda com as ilusões da modernidade batendo em nossos corações enquanto o mundo ao nosso redor se arruína. Terá de sermos nós, a única matéria humana disponível, com o melhor que conseguirmos encontrar na escassez íntima de nossos interiores.
O tempo de despertar já passou. Agora é preciso acordar em pé.
* Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficçãoColuna Prestes – o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos e do romance Uma Duas. Site:desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter:@brumelianebrum