Medo do novo de novo



A humanidade está em constante evolução. Desde quando nossos antepassados decidiram descer das árvores e explorar o mundo em que viviam, as transformações e inovações não pararam. Na cidade do Recife, onde nasci, não foi diferente. No final do século XIX, dentre tantas novidades trazidas por ingleses e franceses de um continente em grandes transformações, chegaram os primeiros trens urbanos com a promessa de dinamizar o transporte de pessoas e cargas, antes resumido aos veículos de tração animal.


O que seria um avanço nos transportes foi alvo, inicialmente, de grande relutância por parte de cidadãos da época. Na capital, casos de repúdio ao novo meio de transporte surgiam, movidos pelo medo do que aquela novidade poderia ocasionar no sistema de transporte o qual eles já estavam acostumados. Eram comuns alegações sobre possíveis enfermidades nas vistas dos passageiros ao olhar os postes “passando” depressa demais, ou ainda ao sistema cardíaco por estar à incrível velocidade de 20 km/h, incompatível com o ritmo biológico humano.


Moradores de algumas cidades vizinhas solicitaram a retirada dos trilhos, mesmo antes da estrada entrar em operação, alegando “possíveis acidentes com animais e carroças”, solicitação essa acatada pelos administradores da província da época. Com o passar do tempo, os trens foram se mostrando verdadeiras máquinas do desenvolvimento, encurtando distâncias, transportando mercadorias, pessoas, esperanças e progresso para todos os cantos onde passava. Histórias como essa recheiam o passado não só da minha cidade natal, mas de muitos outros lugares do mundo. Terminam por se tornar folclóricas quando contadas hoje em dia e trazem gargalhadas em rodas de amigos.


Vindo para os dias atuais, as mudanças não pararam. Já os temores permanecem. A própria origem da denominação “geração X” vem do temor do novo. A geração dos Baby Boomers questionava ‘o que esperar dessa nova geração?’. Teorias foram feitas aos montes, algumas tão folclóricas quanto às dos que condenaram o trem no final do século XIX. Muita coisa não se concretizou. Da mesma forma, a geração Y trouxe uma nova onda de transformações que ainda assustam os X. Encarar a mudança é sempre bom, porém algumas mudanças são combatidas apenas pelo medo do novo, pelo sentimento de que as coisas são boas como estão e não precisam melhorar. As justificativas, quando existem, são mais embasadas em um medo irracional do que sustentadas por uma análise racional.


Se o primeiro de nossos antepassados que desceu da árvore tivesse dado ouvidos às reclamações de seu bando, talvez ainda estivéssemos lá. As mudanças sempre virão, são inevitáveis e, para que o mundo continue seguindo o seu rumo, elas precisam acontecer, independentemente dos que sempre vão insistir para que o mundo continue como está. E não terminarão por aí.


A geração Z já está saindo das escolas e iniciando seus primeiros estágios. Logo o mercado estará cheio deles, trazendo uma cultura digital vinda do berço, pensamentos e mudanças cada vez mais velozes. Tudo isso amedronta, mas prefiro não comentar. Não quero que riam de mim no futuro.
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